We're all unplugged

sábado, agosto 21, 2004

Cacém outra vez

Depois de uns dias na galderice na terra, voltei ao Cacém, que é um sitio muito diferente.
No Cacém tenho torneiras em casa. Na terra tenho uma torneira no pátio.
No Cacém tenho vista para a mata cheia de vandalos e gatunos, e do outro lado para a linha de comboio. Na terra tenho vista para a planicie e para a Serra de São Mamede.
No Cacém adormeço ao som dos carros, dos comboios e dos vizinhos à porrada. Na terra adormeço ao som das corujas, das folhas das árvores.
No Cacém ardem prédios. Na terra arde a serra, na serra ainda está a madeira que ardeu no ano passado.
No Cacém, as pessoas vão a Lisboa. Na terra as pessoas vão a Portalegre. Lisboa é emoldurada pela colina do castelo, Portalegre é emoldurada pela Serra da Panha, que ardeu este Verão.
No Cacém as pessoas vão às praias de mar. Na terra as pessoas vão á praia de rio. Lá não têm ondas, a não ser de calor.
No Cacém as pessoas trabalham muito. Na terra também, mas lá devem trabalhar ainda mais, porque têm as caras cansadas, as mãos calejadas, o suor escorre do rosto, não houve tempo para estudar.
No Cacém há muita gente com o ensino secundário, Na terra, da pouca gente que teria idade para ter o ensino secundário, poucos têm. Menos ainda o ensino superior.
No Cacém há muito computadores. Na terra nem por isso, mas também pouca gente saberia usá-los. Ainda assim, há gente com vontade, e há um computador à disposição na junta de freguesia, e há uma página na internet.
No Cacém não há restaurantes recomendados por guias e por revistas. Na terra .
No Cacém há miúdas giras. Na terra também, mas são poucas.
No Cacém há miudagem, Na terra há uns quantos miúdos.
No Cacém fala-se o chamado português corrente. Na terra também, mas têm um sotaque engraçado e uma palavras especiais.
No Cacém não há turismo. Na terra há.
No Cacém não se produz vinho. Na terra sim, e até se exporta.
No Cacém já há eletricidade desde sempre praticamente. Na terra acho que só lá chegou por volta do ano em que nasci 1986.
No Cacém há patrões beras. Na terra também.
No Cacém há estação e comboios, no máximo, de 20 em 20 minutos. Na terra a estação é a seis quilómetros e há dois comboios por dia em cada sentido, mas qualquer dia deixa de haver, e é uma pena, uma estação tãao bonita, tão igual às outras todas.
Porra, isto nunca mais acaba.
No Cacém há gente que bebe e há gente que bebe muito. Na terra também, mas há pessoal que bebe todo o dia, todos os dias, até caír.
No Cacém há malucos. Na terra o pessoal fica maluco, porque não há nada para fazer.
No Cacém já não há espaço para construir. Na terra estão a construir e a reconstruir.
No Cacém vive-se não sei do quê. Na terra vive-se da terra.
No Cacém há o IC19. Na terra há o IP2, a estrada de Portalegre até Arronches Elvas e Espanha toda arranjada de novo.
No Cacém enchem-se atlânticos e coliseus e amálias e my fair ladys. Na terra meteram o Julio Iglesias na inauguração do estadio novo, para angariação de ajuda para as vitimas dos incendios, e o pobre do Julio ficou a cantar para umas duzias de pessoas e uns milhares de cadeiras, a maior parte das pessoas vinha de fora, quase ninguém de Portalegre, e em vez de isto render, deu prejuízo aos coitados da câmara.
No Cacém não me estou a lembrar de nenhum museu. Na terra há um museu de tapeçarias que é do caraças, é um dos patrimónios mais importantes da cidade isto das tapeçarias.
E isto podia continuar mas eu já estou cansado.